Inspire-se 49 grandes livros da nossa poesia

Confira as indicações do professor Alfredo Bosi e descubra o mundo da poesia.

A palavra grega poiesis, que deu origem ao termo poesia, refere-se de forma geral a "criar ou fazer" e ao conceito de "produção artística". Assim, é possível dizer que existe poesia sempre que alguém, ao criar ou fazer qualquer coisa, é tomado pelo sentimento do belo, ou sempre que uma pessoa se comove diante de indivíduos, lugares ou mesmo objetos. Uma pintura, uma foto, um gesto, uma música, um filme ou um conto podem estar carregados de poesia.

Já em latim, a palavra poema significa "composição em verso" e ainda "companhia de atores", e no grego, poíéma é o que se faz, a obra, a criação do espírito, a invenção. Pode-se dizer que o poema é poesia que se organiza e se faz representar com palavras.

Entre conceitos tão subjetivos, seria muita pretensão recomendar a lista definitiva dos melhores livros de poemas. Certamente as crianças teriam os seus favoritos, assim como os apaixonados, os ressentidos, os nostálgicos… E todos estariam certos em suas escolhas. Afinal, como classificar ou comparar as emoções?

Mas é possível recomendar bons títulos para quem deseja ampliar seus conhecimentos e sua capacidade de se emocionar e de se surpreender. Para descobrir o mundo da poesia ou se aprofundar nele, confira nossas indicações, baseadas numa lista elaborada por Alfredo Bosi, professor, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras.

O premiado autor e estudioso de literatura partiu de uma linha do tempo para destacar 120 grandes obras da Literatura Brasileira, das quais selecionamos os livros de poesia. "O que esta linha do tempo representa? Explicitamente, a história da Língua Portuguesa. O que ficou implícito foi a inclusão de obras de autores brasileiros de nascimento ou adoção, que já nos deixaram, mas permanecem vivos na vida de suas obras, na leitura que delas fazemos e na memória que merecem como artistas da língua portuguesa no Brasil",  disse Bosi.

Sobre os livros de poesia, o professor ressaltou os nomes de Mário de Andrade, Jorge de Lima, Murilo Mendes, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles e João Cabral de Melo Neto. "São todos poetas de envergadura nacional e internacional, que precisam ser conhecidos pelos nossos alunos secundários e universitários", falou.

Confira a lista de Alfredo Bosi e veja informações sobre cada uma das obras. Vale lembrar que algumas são de domínio público e estão disponíveis para download na internet. Outras podem ser encontradas em livrarias e bibliotecas de todo o país.

Brasil Colônia (séculos 16, 17 e 18)

Autos e Poesias, de José de Anchieta – A obra de José de Anchieta é a primeira manifestação literária em terras brasileiras. Tem linguagem simples e é marcada pela preocupação em reforçar conceitos morais e espirituais.

Cartas Chilenas, de Tomás Antônio Gonzaga – São poemas que satirizam e criticam desmandos de componentes do governo e que circularam em Vila Rica poucos anos antes da Inconfidência Mineira, em 1789.

Glaura, de Manuel Inácio da Silva Alvarenga – Um conjunto de poemas composto por rondós e madrigais, com sonoridade musical, que conta as desventuras de um poeta apaixonado por uma pastora. O estilo sentimental e espontâneo do autor abre o caminho para o Romantismo.

Marília de Dirceu, de Tomás Antônio Gonzaga – Os versos amorosos, inspirados na paixão do autor pela jovem Maria Dorotéia, expressam o desejo por uma vida simples e bucólica, marca do Arcadismo, mas já trazem indícios do sentimentalismo romântico.

Música do Parnaso, de Manuel Botelho de Oliveira – O primeiro livro impresso criado por um autor nascido no Brasil foi lançado em Portugal e traz poemas barrocos, com destaque para o poema A Ilha de Maré, que exalta elementos da natureza do Brasil.

O Caramuru, de Frei José de Santa Rita Durão – O poema épico reúne relatos históricos, descreve paisagens e faz referências a costumes e lendas indígenas, além de abordar o tema do amor universal ao contar a história do português Diogo Álvares Correa, o Caramuru, e jovem índia Paraguaçu.

O Uraguai, de Basílio da Gama – Poema épico sobre a luta de espanhóis e portugueses contra índios e jesuítas dos Sete Povos das Missões. Para alguns estudiosos, definiu o início do Romantismo.

Obras Poéticas, de Cláudio Manuel da Costa – O livro reúne a produção lírica do autor e marca a fundação da Arcádia Ultramarina, uma instituição que reunia os autores mais importantes da época.

Poesias, de Gregório de Matos – O autor barroco conhecido como "boca-do-inferno" por seus poemas satíricos, obscenos e críticos, também abordou o amor idealizado e a reflexão moral. As contradições são uma constante em seus poemas, que oscilam entre o sagrado e o profano, o sublime e o grotesco, a busca por Deus e os apelos terrenos.

Prosopopéia, de Bento Teixeira – O único livro do autor é um épico de importância histórica, que narra acontecimentos no Brasil e na batalhe em Alcácer-Quibir, na África.

Viola de Lereno, de Domingos Caldas Barbosa – Livro que registra poemas, cantigas e modinhas do sacerdote, músico e poeta, famoso por improvisar trovas ao som da viola, usando vocabulário e sintaxe marcantemente brasileiros. 

Romantismo, Realismo, Parnasianismo e Simbolismo (século 19)

As Primaveras, de Casimiro de Abreu – O único livro lançado pelo poeta já mostra todo o sentimentalismo que caracteriza sua obra e traz temas como a nostalgia da infância, a natureza, a exaltação da juventude e da pátria, a idealização da mulher amada e o pressentimento da morte.

Broquéis, de Cruz e Sousa – Destacada como a obra que inaugura o Simbolismo na literatura brasileira, tem linguagem figurada e requintada, com muitas metáforas e versos de grande musicalidade, carregados de sentimento.

Cântico do Calvário, de Fagundes Varela – Um exemplo sentimental e humano da poesia lírica e melancólica do autor, que revela paixão contida e religiosidade, mas também o pessimismo e o culto à morte.

Dona Mística, de Alphonsus de Guimaraens – A poesia do autor simbolista é marcada pela espiritualidade, numa atmosfera de religiosidade e mistério que se evidencia nos três temas centrais de toda sua obra: o misticismo, o amor e a morte.

Espumas Flutuantes, de Castro Alves – São 53 poemas lírico-amorosos, que não só se referem a mulher na forma idealizada, mas buscam o amor real e carnal, com toques de erotismo. Traz no título a referência à transitoriedade, indício da sensação de morte que atinge o poeta.

Inspirações do Claustro, de Junqueira Freire – Os poemas autobiográficos demonstram a angústia e o arrependimento do autor por ter se tornado monge e procurado na vida religiosa a saída para seus questionamentos íntimos e problemas familiares.

O Guesa, de Sousândrade – No poema em treze cantos, baseado numa lenda indígena, o autor inova na linguagem, cria neologismos e metáforas surpreendentes, numa obra que só foi devidamente reconhecida muito tempo depois.

Obras, de Álvares de Azevedo – Publicados postumamente, os poemas do autor são marcados pela melancolia, sarcasmo e subjetividade. Os temas são o desejo de amor nunca realizado, a incapacidade de adaptação ao mundo real e a busca pela morte.

Poesias, de Olavo Bilac – Obra de estréia do mais importante poeta parnasiano e um dos mais populares do Brasil, mostra extremo rigor na forma e na linguagem e traz os famosos sonetos "Via- Láctea" e "Profissão de Fé".

Primeiras Trovas Burlescas, de Luís Gama – Uma reunião de poesias líricas e satíricas, que ridicularizam a aristocracia e os poderosos da época e mostram o olhar crítico do autor, poeta, jornalista e advogado, que chegou a ser vendido como escravo na infância.

Primeiros Cantos, de Gonçalves Dias – O livro traz temas como a nostalgia, a dor do amor, a natureza e a força da crença religiosa e inova ao mostrar o índio como personagem principal da saga, apresentando-o como herói.

Segundos Cantos e Sextilhas de Frei Antão, de Gonçalves Dias – O conjunto de poemas narrativos escritos em português arcaico e classificados pelo autor como "ensaios filosóficos", são uma tentativa de aproximar a literatura portuguesa e a literatura brasileira.

Sinfonias, de Raimundo Correia – Reúne alguns dos sonetos mais notáveis da literatura brasileira, com o apuro formal característico do Parnasianismo. Para Manuel Bandeira, Raimundo Correia é autor de "alguns dos versos mais misteriosamente belos da língua portuguesa".

Suspiros Poéticos e Saudades, de Gonçalves de Magalhães – A obra une as ideias de poesia e experiência, de arte e vivência e trata de individualismo, patriotismo, idealização da infância, evocação da natureza e sentimentalismo e é considerada a primeira representante do Romantismo brasileiro.

Vozes d’África – O Navio Negreiro, de Castro Alves – Os poemas apresentam a linguagem e o estilo característicos da terceira geração romântica e revelam a relação da poesia com a oratória, visando à comoção e persuasão do leitor em defesa das ideias liberais a abolicionistas do autor, conhecido como Poeta dos Escravos.

Pré-modernismo (séculos 19 e 20)

Eu, de Augusto dos Anjos – Único livro lançado pelo poeta, tem um notável rigor na forma, com um tom amargo e sombrio, que mostra ao mesmo tempo obsessão pela morte e aversão a ela. A linguagem científica e o vocabulário considerado de "mau gosto" causaram polêmica na época do lançamento, em 1912.

Poemas e Canções, de Vicente de Carvalho – Com prefácio de Euclides da Cunha em sua primeira edição, o livro foi um grande sucesso de público e apresenta poemas de grande rigor formal, que se aproximam do Parnasianismo, mas mantém a expressão lírica e sentimental do Romantismo.

Últimos Sonetos, de Cruz e Sousa – A poesia dramática e de linguagem forte e exuberante, revela a angústia do autor diante da proximidade da morte e seu anseio pelo reconhecimento de seu valor artístico.

Modernismo (século 20)

Alguma Poesia, de Carlos Drummond de Andrade – Primeiro livro de poesias do autor, é um elo entre a primeira e a segunda geração do Modernismo. Aliando sensibilidade, inteligência e humor ao verso livre e à linguagem coloquial, Drummond lança um olhar poético sobre o cotidiano.

Libertinagem, de Manuel Bandeira – A obra mais vanguardista do poeta, mostra sua intenção de romper com as formas tradicionais e acadêmicas da poesia. Os versos livres, o humor e a linguagem coloquial sugeridos pelo Modernismo se harmonizam com a refinada simplicidade de Bandeira.

Martim-Cererê, de Cassiano Ricardo – Um conjunto de poemas com variações de forma e ritmo, faz referências à lendas indígenas e africanas para retratar a formação do Brasil. O livro foi revisto várias vezes pelo autor que na 12ª edição incluiu um artigo revogando as edições anteriores.

Pau-Brasil, de Oswald de Andrade – Primeiro livro de poesia do escritor, é símbolo do movimento conhecido como Poesia Pau-Brasil, criado no Modernismo brasileiro por Oswald na literatura e por Tarsila do Amaral na pintura.

Paulicéia Desvairada, de Mário de Andrade – Considerada a base do Modernismo no Brasil, a obra que rompeu com a estética literária da época é uma coletânea de poemas sobre a cidade de São Paulo, a metrópole em contínua transformação.

Raça, de Guilherme de Almeida – O ensaísta e poeta faz uma sofisticada síntese lírica da formação do povo brasileiro, adotando a linha nacionalista do Modernismo.

Ritmo Dissoluto, de Manuel Bandeira – Livro da segunda fase Modernista, apresenta temas do cotidiano como matéria poética, com predominância de versos livres e quebra da cadência rítmica tradicional.
 

Pós-modernismo (século 20)

49 Um por Todos, de José Paulo Paes – Uma reunião de textos publicados anteriormente revela a força poética do autor, indicando as linhas de continuidade em sua obra e a definição de sua voz própria, que se consolida em seu humor e nos jogos verbais cheios de lirismo.

A Poesia em Pânico, de Murilo Mendes – Obra de um dos autores que mais se identificou com o Surrealismo e que mostra uma visão particular da religiosidade, conciliando a preocupação social e seu interesse pelo sobrenatural.

A Rosa do Povo, de Carlos Drummond de Andrade – Considerada por muitos como a mais importante obra do autor, traz poemas escritos entre 1943 e 1945, período de crise no mundo, quando os horrores da II Guerra Mundial angustiavam a humanidade e o Brasil enfrentava a ditadura de Getúlio Vargas.

A Túnica Inconsútil, de Jorge de Lima – Poemas espiritualistas, que demonstram grande fervor religioso e procuram estabelecer a poesia como um meio de comunicação entre o natural e o sobrenatural, entre o humano e o divino.

Claro Enigma, de Carlos Drummond de Andrade – Retomando formas clássicas, como soneto, o poeta mostra um tom desiludido e pessimista, sem, no entanto, abandonar o lirismo que o caracteriza e o olhar crítico para o mundo ao seu redor.

Flor da Morte, de Henriqueta Lisboa – A obra reúne textos de caráter intimista e filosófico de uma das escritoras mais importantes do Modernismo e foi classificada por Carlos Drummond de Andrade como "uma persistente, ondulante e apaixonada meditação sobre a morte".

Invenção de Orfeu, de Jorge de Lima – Um poema complexo, em dez cantos de estilos variados, que reúne referências a epopéias clássicas, como a Divina comédia, Eneida, Os Lusíadas e a própria Bíblia, além de elementos sociais brasileiros.

Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto – Uma das obras mais importantes da literatura brasileira, é um conjunto de poemas dramáticos criados para um auto de Natal que narra a saga de um retirante nordestino que parte para a cidade grande tentando escapar da miséria.

O Cão sem Plumas, de João Cabral de Melo Neto – Poema publicado em 1950, que descreve as condições sub-humanas enfrentadas pelos moradores das palafitas às margens do rio Capibaribe, no Recife, e inicia um ciclo em que o poeta mostra sua preocupação com a realidade nordestina e a denúncia da miséria.

Poemas, Sonetos e Baladas, de Vinicius de Moraes – Um dos mais belos livros do poeta, lançado em edição limitada, com 22 ilustrações do artista Carlos Leão. Traz poemas famosos que depois foram reproduzidos em várias antologias, como Soneto de Fidelidade, Soneto da Separação, Balada das meninas de Bicicleta, entre outros.

Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles – Uma narrativa épica e poética, elaborada a partir de uma detalhada pesquisa histórica, que retrata a sociedade mineira no século XVIII, com destaque para as personalidades envolvidas na Inconfidência Mineira.

Viagem, de Cecília Meireles – Os doze poemas dessa obra são como fases de uma jornada espiritual da autora, onde a vida e a poesia se misturam de forma intimista, num tom leve, porém melancólico.

Xadrez de Estrelas, de Haroldo de Campos – O autor, um dos criadores da poesia concreta brasileira, apresenta uma seleção de sua produção poética de 1949 a 1974, destacando a busca por novas formas de estruturação e sintaxe, tanto em poemas curtos quanto em longos poemas em prosa.
 

Texto Monica Pina 

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