Adolescentes e as redes sociais

Nesta entrevista a psicóloga Andréia Schmidt falar sobre o tempo em que os adolescentes, e também muitos adultos, passam conectados a diferentes redes sociais. Essas redes têm se tornado o meio preferencial de comunicação entre os jovens e, em muitos casos, o de estabelecimento de relacionamentos. Na entrevista são esclarecidas dúvidas como: será que esses adolescentes conseguem avaliar o impacto de suas ações nas redes sociais sobre si mesmos ou sobre os outros? De que forma é possível discutir esse tema com os adolescentes? Pais e educadores estão preparados para lidar com essa exposição ou também precisam aprender a administrar sua própria imagem nas redes?

Confira a entrevista completa que os internautas ajudaram a fazer!

Somente com educação, conscientização e capacitação é que poderemos transformar nossas crianças e adolescentes em verdadeiros cidadãos. Precisamos quebrar o estigma de que a Internet é um mundo sem leis e mudarmos alguns conceitos diante da nova realidade em que vivemos. Como posso fazer isso?

Talvez o primeiro passo seja entender que o mundo virtual é composto por pessoas, que devem ser respeitadas em seus direitos, da mesma forma que no mundo dito “real”. Parece haver uma crença equivocada e disseminada entre as pessoas de que o mundo virtual não é composto por pessoas reais. Por outro lado, também é importante lembrar que racismo, intolerância e práticas ofensivas em geral são problemas sociais que não são exclusivos da Internet, e que devem ser encarados tanto no mundo real quanto no virtual. Nesse sentido, o que a Internet tem evidenciado, a meu ver, é a necessidade cada vez mais urgente de discutirmos a ética nas relações sociais, quaisquer que sejam os meios em que tais relações ocorram.
Essa discussão sobre a ética nas relações sociais não é apenas uma forma de se criar uma cultura de civilidade aplicável às relações virtuais. Alguns autores americanos utilizam o temo “civilidade virtual” para caracterizar essa atitude de respeito pelo outro em comunidades virtuais, mas parece óbvio que essa não é apenas uma necessidade criada pela Internet, mas uma urgência do nosso mundo, do qual a Internet faz parte. Penso que a escola é um espaço social privilegiado para esse tipo de discussão e incluir no currículo discussões sobre cidadania que envolvam também a Internet é uma forma de começar.

Como orientar os pais sobre os riscos a que os seus filhos estão expostos com o uso indevido da Internet?

Informação é sempre o primeiro passo. Quanto mais os pais estiverem informados sobre os riscos da Internet, mais condições eles terão de orientar os filhos. É importante lembrar, porém, que a informação deve ajudar os pais a lidar com o tema segurança na Internet no sentido de ajudar os filhos a tomar decisões acertadas na rede, e não no sentido de mera proibição do seu uso. A escola pode ter um papel importante nesse sentido, ao promover discussões com os pais e ao fornecer subsídios para que os pais possam dialogar com seus filhos sobre o comportamento na rede.

Visto que nem sempre estar utilizando o computador significa que está aprendendo, trabalhando ou estudando, você não acha que o tempo que os alunos ficam na frente do computador deve estar incluído no tempo que a família permite como lazer ao filho?
O tempo que crianças e adolescentes permanecem na Internet deve ser decidido pelos pais, em conjunto com os filhos. No entanto, cabe aos pais, sempre, o papel de ponderar em que medida os filhos não estão abandonando outras atividades importantes, como atividades físicas, sociais e leitura, por exemplo, para ficar em frente à tela do computador. Sozinhos, os filhos não têm condições de avaliar as consequências do excesso de tempo na Internet. Por isso, há a necessidade do diálogo entre pais e filhos sobre o assunto, o estabelecimento de regras claras e o monitoramento do cumprimento dessas regras.

Nossos alunos fazem parte de uma Geração Conectada. Já nasceram imersos numa cultura digital e fazem tudo na rede, pela rede e com a rede. Uma dúvida fica: como o professor poderia utilizar REDES SOCIAIS em sua prática? Como tornar essa ação satisfatória e não negativa?

As redes sociais podem ser ferramentas interessantíssimas para a aprendizagem por dois motivos. Primeiro, porque utilizam uma linguagem fácil e que faz parte do cotidiano de adolescentes. Segundo, porque são dinâmicas, versáteis e permitem inúmeras possibilidades de utilização, além, é claro, do seu poder motivacional sobre os adolescentes. Para seu uso acadêmico, porém, é necessário que o professor domine a ferramenta, de modo a poder pensar nas possibilidades que ela oferece para seus objetivos acadêmicos. Além disso, é importante que a atividade proposta nas redes sociais seja orientada, ou seja, que o professor tenha clareza dos objetivos da atividade e da forma como ela deve ser conduzida (com espaço para a criação dos alunos) e problematizada, isto é, que os resultados sejam discutidos criticamente e que possam promover o debate e a construção coletiva de conhecimentos a partir da atividade proposta. Em muitos contextos, porém, a possibilidade de uso das redes sociais para fins educativos esbarra nos conhecimentos dos professores. Por isso, talvez o primeiro passo seja a capacitação do professor para utilizar essa ferramenta com fins não apenas recreativos. A partir disso, as possibilidades são enormes.

De que forma posso "cuidar" do que meu filho está postando e com quem está interagindo na rede sem que ele se sinta invadido?

É papel dos pais acompanhar a atividade virtual dos filhos, da mesma forma que acompanham as atividades deles no mundo “real”, e quanto mais novo o filho, maior é essa necessidade. Nas relações fora da rede, os pais procuram saber quem são os amigos dos filhos, os locais que frequentam, o que eles pensam e como conduzem a solução de seus problemas. Obviamente, é impossível saber exatamente tudo o que o filho faz na escola, nas festas que frequenta ou na casa dos amigos. No entanto, além do monitoramento possível, os pais precisam contar com a formação que oferecem aos filhos diariamente, por meio do diálogo e da discussão de temas que julgam importantes para a educação das crianças e dos adolescentes. O mesmo deve ocorrer na Internet. É papel dos pais, sim, monitorar as atividades dos filhos na rede, e não há qualquer problema em o pai visitar a página do filho em redes sociais, por exemplo. Mas, assim como no mundo fora da rede, é impossível saber tudo o que o filho faz na Internet. Por isso é importante oferecer ao filho a oportunidade de dialogar sobre temas importantes na rede, como segurança na Internet, atitudes aceitáveis em relacionamentos virtuais e, principalmente, sobre as consequências possíveis de atitudes inapropriadas. Essas atitudes vão ajudar o filho a tomar decisões mais conscientes na rede, da mesma forma como a educação auxilia as crianças e os adolescentes a tomar decisões na vida fora da rede.

Tanto os adolescentes como os adultos têm necessidade de serem vistos, de serem reconhecidos, de se mostrarem nas redes sociais. São comportamentos atuais e reais. Qual é o limite dessa exposição?

Essa é uma dúvida interessante, porque não diz respeito apenas ao mundo virtual. As pessoas, de modo geral, têm opiniões diversas sobre a adequação ou não de uma roupa em uma situação social, por exemplo. Há pessoas que acham aceitável um decote maior, outras não. Mas, de modo geral, a medida dessas diferentes formas de pensar vai sendo construída também pela opinião do outro, pelo impacto imediato que essas escolhas têm sobre os outros. É um impacto limitado (são as pessoas presentes em um local que elogiam ou criticam a roupa escolhida e, no máximo, os comentários permanecem por um tempo e, depois, tendem a enfraquecer e desaparecer). Essa experiência dá à pessoa a medida da exposição que ela deseja frente aos outros.

O problema dessa construção no mundo virtual, no entanto, é que: a) o impacto da exposição não pode ser mensurado de imediato, ou seja, a pessoa não consegue saber o que os outros pensaram de uma foto postada, exceto pelos poucos comentários recebidos de amigos na rede, por exemplo; b) a pessoa não consegue dimensionar quantas pessoas terão acesso ao material que ela postou, o que significa, por exemplo, que o impacto de uma foto postada na rede pode ser infinitamente maior que o de uma roupa usada em uma festa; e c) esse impacto pode durar por um tempo muito, muito maior do que duraria se ocorresse no mundo real.

Essas são as questões que as pessoas têm dificuldade de dimensionar quando decidem postar uma foto ou um vídeo na Internet, e, por conta dessa dificuldade, elas se arriscam mais e se expõem mais, e nem sempre estão preparadas para as consequências desses riscos. Essa “avaliação de riscos” é que deveria dar a cada um a medida do limite da exposição. Talvez seja isso que adultos e adolescentes precisem aprender a pensar antes de se expor na rede.

Será que se o jovem for “trabalhado” de uma maneira mais intensiva na sala de aula ou dentro dos limites da escola conseguiria ser levado à reflexão sobre os perigos da exposição nas redes sociais no momento em que ele decidir se vai ou não se expor?

Com toda a certeza, toda a reflexão feita no ambiente escolar sobre o tema será levada em consideração no momento de o adolescente decidir o que irá ou não postar na rede. Muitos pais também se perguntam se a orientação que eles dão sobre segurança na Internet é levada em conta pelo jovem ao navegar pela rede, e as pesquisas feitas com os próprios adolescentes confirmam que sim. É por isso que vale a pena investir em programas de informação e discussão sobre esse tema: não é possível garantir que todos os problemas serão evitados, mas é possível ter a certeza de que os adolescentes terão mais subsídios para avaliar a adequação ou não de suas ações na rede.

A escola tem assumido diferentes atribuições que antes não tinha, pois sua função era dar conta dos conteúdos curriculares. Educar os adolescentes para se comportarem nas redes sociais não seria atribuição da família?

O papel da escola vai além da transmissão de conteúdos acadêmicos, no sentido de que o próprio currículo tem a função de preparar crianças e adolescentes para a atuação na sociedade, não apenas em termos de conhecimentos técnicos, mas também em termos atitudinais. As redes sociais são parte de nossa cultura e atuar nelas é também uma forma de atuação social. É por isso que a escola, como agente de socialização, também tem o dever de discutir de que maneira os adolescentes se portam no ambiente virtual: como usam as redes, quais as consequências de seu comportamento (para si e para os outros) e como é possível usar esse meio de forma produtiva. Educar, em todos os níveis, deve ser papel compartilhado por pais e escola; sendo assim, também nesse assunto, a parceria entre os pais e a escola é fundamental.

Andréia, penso que hoje o problema da Internet vai além do comportamento. Vejo adolescentes responsáveis com suas postagens, que têm um comportamento reflexivo frente à Internet, mas a grande dificuldade é ficar desconectado e focado nas tarefas da escola. Você tem uma dica de como organizar a rotina para que os adolescentes otimizem seu tempo de estudos?

Nossa cultura tem se tornado cada vez mais complacente com o tempo que se passa na Internet. Parece muito natural, por exemplo, irmos a um restaurante e vermos todas as pessoas da mesa checando o tempo todo seu celular, enviando/respondendo mensagens, vendo as novidades nas redes sociais e assim por diante. Também é comum vermos pais de crianças pequenas chegando a esses mesmos restaurantes e imediatamente disponibilizando um tablet, um game de mão ou um aparelho portátil de DVD para que o filho se distraia antes, durante e depois das refeições. Se nos parece cada vez mais natural que, em um espaço próprio para socialização (um restaurante), as pessoas se distanciem umas das outras, mesmo que por alguns momentos, para interagir com máquinas, como podemos esperar que os adolescentes consigam estabelecer limites aceitáveis de uso da Internet? Se os próprios adultos têm muita dificuldade em estabelecer esses limites, de que forma poderão orientar crianças e adolescentes a fazê-lo? É nesse sentido que vejo que a escola pode se tornar um espaço importante para discussões. Levar os adolescentes a terem consciência do tempo que passam conectados (muitos não têm essa noção), do tempo que dedicam a outras atividades, e de quanto seria necessário para atender a todas as demandas da escola, dos amigos e da família, talvez seja um bom começo. No entanto, também é papel dos pais estabelecer essa noção de otimização do tempo dentro e fora da rede, tanto para si mesmos, quanto para os filhos.

Conheço adolescentes super-responsáveis que enfrentam o problema da abstinência da Internet. Ficar na Internet virou um vício e ele é tão forte que atrapalha os afazeres cotidianos. Como os pais podem ajudar seus filhos?

Alguns especialistas têm caracterizado o uso problemático da Internet como uma “preocupação incontrolável” com ela (passar muito mais tempo na rede do que o planejado, em atividades não relacionadas ao trabalho ou aos estudos), com prejuízo significativo em atividades sociais, nos estudos ou no trabalho. Ou seja, quando uma pessoa (adolescente ou adulto) enfrenta problemas para ficar longe da Internet, passa mais tempo na rede do que o planeja (ou do que gostaria) e isso atrapalha outras atividades importantes do cotidiano, é importante a busca de ajuda. Em alguns casos, os pais podem tentar ajudar os filhos a estabelecerem horários mais racionais de uso de computadores e aparelhos “assistentes pessoais digitais” (PDA’s), porém, o grande problema do uso abusivo da Internet é a disponibilidade de acesso à rede: é possível se conectar em casa, no trabalho, na escola ou em qualquer outro lugar, por meio de smartphones ou computadores portáteis. Por isso, é importante que os pais fiquem atentos e não hesitem em procurar ajuda profissional quando perceberem que os filhos têm dificuldades em utilizar a Internet de forma saudável.

http://www.educacional.com.br/entrevistas/interativa/educadores_pais/entrevista041.asp

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