Trânsito

No final do século 19, a mobilidade era um dos grandes desafios nas maiores cidades do mundo, como Londres, Paris e Nova Iorque. Nessa época, grande parte dos veículos individuais e de transporte público eram movidos por cavalos. Em 1850, Londres era a maior cidade ocidental do mundo e possuia cerca 450 mil veículos para deslocarem seus 1 milhão de habitantes. Para dar conta dessa locomoção, a cidade possuia cerca de 1,3 milhão de cavalos. Cada um deles deixava um rastro pelas ruas de cerca de 30 kg de fezes por dia. Isso mesmo: 4 milhões de kg de esterco eram lançados todos os dias nas ruas de Londres. Isso somado ao excesso de veículos que se deslocavam causava imundos e caóticos congestionamentos na cidade.

Mas no início do século 20, a solução tanto para a mobilidade quanto para a poluição das ruas parecia ter surgido. O automóvel era mais veloz e, acreditava-se, mais limpo do que as carroças. Finalmente um meio de transporte que não deixaria rastros de esterco pela rua e, em vez de ser coletivo como os trens e metrôs, serviria à mobilidade e ao conforto individuais.

O problema é que o carro se tornou o centro de planejamento das cidades – e os Estados Unidos são o melhor exemplo disso, com tantas cidades entupidas de avenidas expressas e viadutos. No Brasil, a maioria das escolhas de planejamento de mobilidade também priorizou o automóvel como meio de transporte. Símbolo de evolução e progresso, ele eliminaria as “sujas” estradas de terra, que seriam pavimentadas com o “limpo” asfalto.

Mas o fato é que tanto os níveis de congestionamento quanto os problemas de saúde pública foram agravados pelo excesso de veículos.  Hoje, na cidade de São Paulo, estima-se que um terço dos deslocamentos sejam feitos de carro. Só que eles ocupam 80% dos espaços das vias públicas – e aí chegamos em uma situação insustentável em que a minoria das pessoas ocupa a maioria do espaço. E os problemas de saúde causados pelos carros são ainda mais graves do que aqueles causados pelos cavalos lá no século 19. Não falo só dos acidentes que lesionam pessoas todos os dias, mas de problemas cardíacos e respiratórios que não só os motoristas mas todos sofrem por conta da poluição gerada pelos veículos. Aliás, segundo o pesquisador do Hospital das Clínicas Paulo Salvida, 80% dos leitos do Sistema Único de Saúde são ocupados por vítimas do excesso de carros em São Paulo. Com o aumento progressivo da malha viária de São Paulo, muitos dos rios, vistos como esgotos a céu aberto que atrapalhavam o deslocamento dos veículos, foram canalizados em galerias que correm debaixo do asfalto impermeável. E, quando chove, toda a sujeira residual deixada pelos carros nas ruas é carregada direto para os rios. Se por um lado nos livramos do esterco de cavalo, por outro poluímos o rio com substâncias muito mais tóxicas. A ideia da limpeza e velocidade dos automóveis no início do século 20 não podia ser mais ilusória.

O fato de que os carros não são a solução para a mobilidade das cidades começa, felizmente, a se consolidar no Brasil. Quando falamos de resolver o trânsito, há três coisas que se precisam entender:

1. A cidade é um organismo interdisciplinar e o trânsito é só uma das partes desse sistema. Por exemplo, em São Paulo, estima-se que todos os dias o equivalente a um Uruguai saia da Zona Leste em direção ao centro. Não é criando milhares de vias para que todos eles possam se locomover que se resolve o trânsito. É também necessário diminuir a necessidade de deslocamentos. E isso se faz criando mais equipamentos de emprego, lazer, saúde e educação nas periferias, por exemplo. Uma cidade enorme como São Paulo não pode ter um único núcleo para o qual todos os 12 milhões de habitantes precisem se deslocar todos os dias. Precisa, sim, ter vários núcleos.

2. As soluções de mobilidade devem ser o mais plural possíveis. Não é apostando só em ciclovias ou BRT ou VLT ou metrô ou carros, mas em uma combinação inteligente de todos eles que se tem um bom sistema de locomoção. Segundo o planejador do Gehl Architects Jeff Risom, a boa cidade do ponto de vista da mobilidade é a que possui mais opções para atender demandas específicas.

3. O congestionamento de São Paulo (e isso vale para qualquer cidade brasileira) é resultado de diversas escolhas políticas que foram sendo feitas nos últimos 100 anos, não nos últimos 4. Não faz sentido um prefeito, em 4 anos, querer resolver o problema. Um legado político muito mais interessante do que uma obra populista que prometa resolver o  trânsito da cidade é começar a fazer as escolhas certas para trilhar um caminho contrário ao que percorremos no século 20, que deixou São Paulo um pouco pior a cada dia. Queremos cidades um pouco melhores todos os dias. Para isso, é preciso se planejar não só a curto, como a médio e longo prazo.

Natália Garcia 

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