Uma questão de atitude

“Se você derramar uma gota de óleo num copo de água, ela vai se misturar. Esse processo é fácil e instantâneo, mas, para separar as duas substâncias, é muito difícil, vai consumir muito trabalho e energia”. Quem explica é o professor Marcelo Errera, coordenador do Departamento de Engenharia Ambiental da Universidade Federal do Paraná (UFPR), ao expor duas implicações do consumo ao meio ambiente: a produção de lixo e a dificuldade em diminuir seu impacto na natureza.

O processo é e sempre foi o mesmo: comprar, usar e jogar fora. O problema é que estamos consumindo mais do que nunca, em parte porque a população cresce em proporções absurdas, mas também porque estamos sendo cada vez mais abordados e sugestionados por apelos de compra. Quem aí resiste ao celular da moda? Quantas camadas de embalagem tem o seu chocolate favorito? Quanta energia, quantos recursos naturais foram extraídos da natureza para que esses produtos viessem parar em suas mãos? E onde isso tudo vai parar quando não servir mais? A que nível de consumo chegamos? O professor Errera ilustra tal situação explicando que “para entregar soja com qualidade na Alemanha, pronta para o consumo, é preciso fazer uso de recursos energéticos e químicos durante toda a cadeia. Toda a estrutura que mantemos para a produção de petróleo, alimentos, eletricidade, cimento, aço, etc., tudo serve para alimentar o consumo”.

O que cada um de nós pode fazer para amenizar os efeitos dos nossos hábitos de consumo sobre a natureza? Adotar o que se chama de consumo consciente? Conforme explica o professor Errera, nesta entrevista concedida ao portal, não existem “o produto certo” nem “a quantidade certa” a se comprar. “O importante é a postura, o questionamento que se faz no ato da compra”. Leia a entrevista e saiba mais sobre o assunto.

O que é consumo consciente?

Como eu falei, idéias variam de época para época. Mas o que posso dizer é que a idéia de consumo consciente está relacionada à postura que se toma na hora de consumir, e não necessariamente a “acertar ou errar” o que se compra. Por exemplo: eu gostaria de comprar a geladeira mais eficiente, mais sustentável em relação ao consumo de energia e grau de contaminação. Mas não pude comprar exatamente a que desejava, por uma série de outras razões. Então, se você errar um pouquinho, não tem problema.

Como saber se estou tomando as decisões certas para consumir de forma mais sustentável?

O que é melhor para o meio ambiente: os banheiros públicos terem folhas de papel descartáveis, toalhas de pano laváveis ou sistema elétrico de secagem com ar quente? A resposta não é simples. Em primeiro lugar, é preciso pensar na função que essas alternativas devem cumprir, que é a de secar a mão do indivíduo em um tempo razoável, com praticidade e eficiência. Então, se ele ficar dois minutos tentando secar as mãos no ventinho quente, essa já não será uma alternativa tão boa. O mesmo vale para a toalha lavável: se elas são bem gerenciadas e higiênicas, tudo bem. Mas é preciso ter alguém que vá ao local, desmonte o aparelho, retire a toalha, transporte-a até uma lavanderia utilizando, provavelmente, um veículo movido a gasolina ou a diesel. Na lavanderia, ela será lavada e esterilizada com a ajuda de uma série de produtos químicos e, depois, colocada para secar em uma secadora elétrica, etc. No caso do papel, quantas folhas são necessárias para secarmos as mãos? Uma, duas? As pessoas respeitam essa recomendação? Outro fator a ser levado em consideração: existem papéis que não secam direito e os que secam. Daqui a dez anos, devido ao aprimoramento das tecnologias ou a algum acontecimento qualquer, essas regras poderão não valer mais. Enfim, listei essas variáveis para você perceber a complexidade de se responder a essa questão.

O importante é a postura, o questionamento que se faz no ato da compra. Para tanto, é preciso distinguir duas fases do consumo consciente: a compra do produto e o uso que se faz dele. Porque uma coisa é comprar algo que foi produzido e transportado de maneira ambientalmente correta, outra é o uso ambientalmente correto desse produto. Ou seja, passar duas horas embaixo do chuveiro não é ambientalmente correto. Essa é uma questão de quanto você está disposto a comprometer seu estilo de vida de forma a consumir de maneira mais sustentável. Quando um governo determina que vai construir mais uma usina hidrelétrica, provavelmente, ele tomou tal decisão porque nós, cidadãos, estamos demandando mais energia.

Vamos tomar como exemplo um objeto do dia-a-dia, como o celular. De que forma ele afeta essa cadeia hoje?
Os telefones celulares estão cada vez mais avançados e compactos, consomem menos energia, a bateria é menor, etc. Com isso, em princípio, eles se tornam cada vez mais eficientes. Os celulares de hoje provocam menos impacto ambiental que os fabricados no passado. Mas será mesmo? É aí que entra a avaliação do ciclo de vida de um objeto, pois, além do tempo de seu uso, nesse caso, o celular, é preciso considerar também o que vai acontecer com ele depois que for descartado. Há quem o encaminhe para a operadora, em troca de descontos na compra de um outro aparelho. Mas há quem o guarde ou o jogue fora simplesmente. E aí é preciso considerar o tempo que esse aparelho vai permanecer na natureza. Hoje em dia, troca-se de aparelho todo ano. O mesmo vale para o computador. O ciclo de vida de um computador não termina quando ele fica obsoleto e você compra um novo. Ele termina quando esse “lixo” vai parar em um lugar qualquer, indevido, podendo ser destinado a um aterro ou, então, ser processado.

Quando o conceito de sustentabilidade se popularizou?
O conceito de sustentabilidade, da forma como o conhecemos hoje, começou a chamar a atenção dos líderes mundiais no final dos anos 80 do século XX. Entre os pesquisadores, esse conceito já era antigo, pois estudos sobre o impacto ambiental e o ciclo da vida já eram desenvolvidos há muito tempo. Eles se iniciaram em 1972, na Convenção de Estocolmo. A partir daí, as coisas começaram a se desenvolver e os líderes e cidadãos, a se interessar pelo tema. Na década de 80, vimos surgir, por exemplo, um movimento popular grande em relação à proteção da camada de ozônio. A preocupação seguinte foi a do efeito estufa, das mudanças climáticas. Se você pegar a história industrial, vai perceber que, somente nos últimos 20 anos, é que as empresas começaram mesmo a levar a idéia de sustentabilidade em conta em suas linhas de produção.

As empresas estão adotando formas de produção mais sustentáveis?
O discurso das empresas é o de que elas precisam ganhar dinheiro para continuar a produzir. Mas acontece que há uma mudança social. A educação ambiental, que começou a ser difundida na década de 80, já está se pagando. Já existe o ambiente político para a aprovação de leis de proteção ao meio ambiente, por exemplo. Existem dois grandes tipos de empresas: aquelas que atuam de acordo com a lei e aquelas que percebem que atuar de acordo com a lei faz com que elas sejam mais bem-vistas pelo consumidor. O fato é que, de maneira geral, as empresas se preocupam muito mais com a sustentabilidade hoje do que 20 anos atrás. Mas nem por isso elas vão deixar de alimentar o consumo. Então, se existe demanda para um combustível de baixa qualidade de processo (ou seja, que tem grande impacto ambiental), as empresas vão produzi-lo.
 

http://www.educacional.com.br/entrevistas/ent_educ_texto.asp?Id=250168

Marcelo Errera
Coordenador do Departamento de Engenharia Ambiental da Universidade Federal do Paraná. Tem pós-doutorado pela Universidade Federal do Paraná (2000), doutorado pela Duke University (1999), dos Estados Unidos, mestrado em Engenharia Mecânica pela Universidade Estadual de Campinas (1994) e graduação em Engenharia Mecânica pela Universidade Federal do Espírito Santo (1992). 

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